O Haiti caiu. Minha vizinha está grávida: "Ela vai ficar com o pai da criança?", "Ela não entrou neste pormenor comigo!"; Eu não gosto do meu emprego e não gosto dos cabelos caidos presos na escova. Não gosto de dar esmola por que precisam mais daquele dinheiro do que eu preciso comer coxinha de frango com suco no intervalo do trabalho e não gosto de ser encarado como sem coração pelos outros quinze pedintes que entraram no ônibus após o primeiro que levou meus únicos trocados.
Mas o Haiti caiu e agora eles merecem mais atenção que os meus pequenos problemas egoístas. Tudo é banal perante a desgraça total do que antes era quase total. Devo provar porque existo, esquecendo minhas preferências para que os desgraçados também tenham preferências. Devo desistir de minhas banalidades e meu mundinho para que todos tenham banalidades e mundinhos.
Desculpe, não sei como fazer isso... No momento estou com uma música na cabeça: French Navy, Camera Obscura. E que clipe lindo. Pessoas lindas numa praça linda de uma cidade linda trocando lindos beijos; o vento lindo soprando os lindos cabelos da linda moça que adora magrelos barbudos com cara de quem termina a noite num pub tomando cerveja boa do jeito que nunca teremos aqui.
Não sinto mais culpa alguma, apenas uma vontade enorme de tomar uma cerveja, olhar para uns lindos rabos, de lindas mulatas, apertados naquelas calças que definem desde a cintura, glúteos (esta palavra me dá vontade de mordê-los) e as panturrilhas; sentir o calor no peito, tudo mais deixar de ser sério, enquanto alguém acima da minha mesquinha vida não a extermina com um tiro, uma dívida exorbitante de cartão de crédito ou transando com minha mulher... Um brinde à nossa vida mesquinha e possivelmente feliz.











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