14/01/2010

Polarizados



O Haiti caiu. Minha vizinha está grávida: "Ela vai ficar com o pai da criança?", "Ela não entrou neste pormenor comigo!"; Eu não gosto do meu emprego e não gosto dos cabelos caidos presos na escova. Não gosto de dar esmola por que precisam mais daquele dinheiro do que eu preciso comer coxinha de frango com suco no intervalo do trabalho e não gosto de ser encarado como sem coração pelos outros quinze pedintes que entraram no ônibus após o primeiro que levou meus únicos trocados.

Mas o Haiti caiu e agora eles merecem mais atenção que os meus pequenos problemas egoístas. Tudo é banal perante a desgraça total do que antes era quase total. Devo provar porque existo, esquecendo minhas preferências para que os desgraçados também tenham preferências. Devo desistir de minhas banalidades e meu mundinho para que todos tenham banalidades e mundinhos.

Desculpe, não sei como fazer isso... No momento estou com uma música na cabeça: French Navy, Camera Obscura. E que clipe lindo. Pessoas lindas numa praça linda de uma cidade linda trocando lindos beijos; o vento lindo soprando os lindos cabelos da linda moça que adora magrelos barbudos com cara de quem termina a noite num pub tomando cerveja boa do jeito que nunca teremos aqui.

Não sinto mais culpa alguma, apenas uma vontade enorme de tomar uma cerveja, olhar para uns lindos rabos, de lindas mulatas, apertados naquelas calças que definem desde a cintura, glúteos (esta palavra me dá vontade de mordê-los) e as panturrilhas; sentir o calor no peito, tudo mais deixar de ser sério, enquanto alguém acima da minha mesquinha vida não a extermina com um tiro, uma dívida exorbitante de cartão de crédito ou transando com minha mulher... Um brinde à nossa vida mesquinha e possivelmente feliz.

27/10/2009

You Have Killed ME


Pasolini sou eu. Accattone será você.
Eu não entrei em nada e nada entrou em mim até você chegar com a chave.
E você deu o melhor de si mas...

Enquanto eu vivo e respiro você me mata, você me mata
Enquanto eu perambulo, de certa forma, você me mata, você me mata.

Piazza Cavour, para o que é a minha vida?

Visconti sou eu. Magnani você nunca será.
Eu não entrei em nada e nada entrou em mim até você chegar com a chave.
E você deu o melhor de si mas...

Enquanto eu vivo e respiro você me mata, você me mata
Enquanto eu perambulo, de certa forma, você me mata, você me mata.

Quem é quem eu me torno aqui?

E não há mais sentido em dizer isso de novo
Mas eu lhe perdôo, eu lhe perdôo
Sempre, eu realmente lhe perdôo.

Parece coisa de diarinho... mas que se foda, qual o sentido de ter um blog?
Nos próximos posts, alguma pornografia.


Ringleader of the Tormentors. Clique na capa para baixar

26/10/2009

Legal ser leitor deste jornal, não?


Se você é de Belém, e lê este jornal, espero que tenha ficado feliz em ter recebido a penetração máxima... ser um dos penetrados... ter a marca rompida... será que quando você comprou o jornal, ontem, recebeu um spam dizendo que era um dos leitores de número um milhão e lá vai cacetada? (esse "cacetada" não é de duplo sentido). Felizardos.

Não, eu não comprei o jornal. Até discuti com o garoto no sinal, pois ele me mandou trabalhar pra comprar o jornal em vez de bater foto das notícias. Mandei-o à puta-que-o-pariu.

Felizardos.

23/10/2009

Velocidade


É incrível a velocidade com que digerimos putaria... COmecei a ler um livro deste puto anteontem e já esbarro nas 200 páginas. Levo em consideração o fato d'eu ter mais tempo para ler nos ônibus que em casa.

Já sei como influenciar meus filhos à leitura. Um Henry Miller pra começar. Se for "minina", Anais Nin. Se for metido à religioso, Marques de Sade. Se gostar de quadrinhos, MIlo Manara, Crepax.

É a putaria salvando o mundo... e quem diria?

12/10/2009

Distrito 9 - A segregação crítica

Este é o primeiro filme que consegui assistir após o impacto que "Amantes", de James Gray, causou-me. Os dois criaram um ponto comum para mim no que diz respeito à criatividade, pois ambos partem de clichês e são, no final das contas, filmes inesquecíveis que marcaram o ano de 2009 no cinema. Pode parecer exagero, mas até o presente momento tento lembrar o nome da autora do artigo que li há algum tempo sobre narrativas em várias mídias artísticas, e que pesava sobre o fato do artista não ter obrigação de criar estórias originais, mas criar novas formas de contar e atingir o expectador. Afinal, clichê também é uma verdade repetida e a arte é a forma com que o indivíduo expressa a opressão da vida, é sua maneira de atingir e compartilhar a verdade, mesmo que esta verdade seja particular e vítima de uma visão passional. A arte tem a obrigação de ser o supra-sumo das emoções, a extração dolorida das percepões sociais de um modo geral.

A arte renova-se para manter-se no centro das atenções, mas esta maneira de atualizar, evoluir, muitas vezes perde o trilho do humanismo e confunde-se a técnica com arte, de maneira que o modo de fazer é mais elogiado que o resultado final. Quando a arte só serve de adorno para a personalidade de alguém, como se este alguém fosse detentor dos direitos de apreciar a arte, então com certeza há algo errado ou com o expectador ou com a arte, e esta geralmente não merece o título de arte, mas de engodo.

Do alto de suas prateleiras de colecionadores, muitos críticos caem neste erro ao comparar e exigir de uma obra o que ela não se propõe, e indicam princípios na obra que apontam propostas, mas a arte não tem compromisso com ninguém além de seus criadores, e a linguagem usada na expressão não pode ser a marca do rótulo para estas. O expectador não pode esquecer que vive em sociedade, sofre em sociedade, anseia em sociedade. Ninguém está livre de errar, mas se não se identifica com tal arte, é melhor não se expressar:

Critica do filme no site OMELETE

Critica do filme no site BRAINSTORM 9

28/07/2009

Como Perder Amigos e Alienar Pessoas

Na camisa: Jovem, Burro e cheio de Esperma.

Ou no Brasil Global: Um Louco Apaixonado

Eu ia começar a escrever que este não é um post que fala exclusivamente do filme, mas em uma idéia do filme... e foi o que fiz. Então só me resta prosseguir.

O filme é baseado no livro de titulo homonimo, pelo menos em inglês, do autor Toby Young e posso começar dizendo que não consigo definir a atitude que o personagem principal tem neste filme, afinal, ele parte da falta de graça, digo, do constrangimento que algumas atitudes clichês podem causar (algo na linha do The Office).

Príncipios e mais príncipios são a base do pensamento de Sidney Young, o personagem de Pegg, dono de uma revista especializada na vida de celebridades, ou mais especificamente especializada em denegrir a vida destas celebridades. A revista vai mal quando Young recebe o convite para trabalhar na maior revista do mercado em N.Y.. Chegando à famosa revista ele vai encarar todo o processo de ter seus princípios debochados e a reputação mais manchada da cidade. E é nesse momento que entra o ponto que discuto.

Ele faz uma pergunta simples: Qual o melhor filme que você já assistiu? Alguém responde: La Dolce Vita. O óbvio, tinha que ser um clássico, algum filme abastado pela crítica especializada e fumante. Sidney Young diz que o dele é Con Air e explica por quê. A cena se passa em uma festa das ditas celebridades do cinema, em frente ao seu chefe e um diretor que se autodenomina menino-prodígio, trazendo constrangimento para Sidney young, é óbvio, mas o ponto é que ele conhece La Dolce Vita e com certeza conhece os clássicos e escolas cinematográficas, mas só as conhecendo para colocar um filme como Con Air no seu devido lugar, e ele o faz.

Gostosa. Acho que ela engordou durante as filmagens, pois em algumas cenas está magra de dar pena

Antonio Lobo Antunes (nada a ver com a conversa) disse algo que se aplica a esta cena: Só conhecendo a técnica podemos desprezá-la. Parece-me que todo mundo esquece disso para usar de suas REFERÊNCIAS para a auto-propaganda, e esquecem também que um filme tido como bobo já foi festejado e comentado. Hoje se espreme entre vários outros filmes de orçamentos milionários na prateleira das locadoras (ou nas pilhas das barracas dos pirateiros). Mas tudo bem, o lucro já foi colhido.


Gillian Anderson (X-Files)... eu pegava.

30/06/2009

História Real (A Straight Story)


Um filme de David Lynch. Com a primeira frase deste post muitos definiriam um filme deste diretor sem delongas (na verdade sem nada mais), mas este não é um típico filme de Lynch, e sim, como eu considero, um lado B. Não imaginava como esta história pode cair nas mãos de Lynch, mas agora sei porquê.

Ao pedir indicações sobre o filme, me disseram: Cara, é lento; não é um típico filme do D.Lynch. Bom, este é justamente o ponto.

Alvin Straight está percebendo a proximidade da morte quando recebe a notícia de que seu irmão, Lyle, teve um derrame. Lyle mora a 500 km de Alvin e os dois não se falam há dez anos. De repente, para Alvin, o motivo destes dez anos de ausência não importa. A fragilidade que a idade trouxe aos dois irmãos demonstra o quanto a juventude é cheia de tolices, e Alvin decide visitar o irmão em cima de seu único meio de transporte: o cortador de gramas. O espectador é levado pela velocidade do cortador e pelas belas paisagens do país, a trilha sonora e as reflexões de Alvin, que não é um velho chorão ou nostálgico, mas como o próprio diz: Alguém que sabe separar o joio do trigo e não perde mais tempo com bobagens.

A história real aconteceu em 1994 - Alvin foi de Iowa a Winscosin - e sua jornada foi parar no The New Yorker, de onde se tomou conhecimento para o roteiro. D.Lynch, ao aceitar o roteiro, entrou em um carro e refez todo o percurso, colhendo dados e conhecendo pessoas que cruzaram o caminho do viajante. O filme não é uma lição de vida, não é um drama que fala de escolhas e consequências, mas um road-movie que como tal reflete a vontade de transgredir barreiras e sentir a liberdade dos próprios atos e mais ainda da urgência de entender o sentido da vida, mesmo ao final dela.

Não é um filme pra qualquer um, e se você conhece os filmes de David Lynch e não gostou desse, acho que deve rever seus conceitos sobre cinema.